Morte no Brasil e as Arenas Romanas
Data da publicação: 23 de maio de 2018 Categoria: Artigos, GeralO título deste artigo retrata o momento atual de descaso em relação à vida humana.
FERNANDO J. PIRES DE SOUSA
O título deste artigo retrata o momento atual de descaso em relação à vida humana. A grande mídia e o Estado não cumprem a missão precípua de construção de uma sociedade orientada por princípios civilizatórios relativos à ética, direitos humanos, sociais e dignidade. O Brasil está se tornando uma grande arena dos tempos de Roma, onde vidas eram dissipadas sob os aplausos das multidões nos “jogos” promovidos pelo Estado. O maniqueísmo – o bem e o mal, o mocinho e o bandido –é exacerbado pela
incompetência de um Estado manipulado por interesses que preservam e transmitem valores escravocratas de dominação e discriminação. A ganância do negócio do crime, sua mercantilização, domina este Estado,pela captura de verbas vultosas dos cofres públicos, não para a promoção da prevenção e da segurança, mas do próprio crime, num verdadeiro círculo vicioso alimentado pela promiscuidade de interesses mútuos de setores e figuras importantes nos três poderes do Estado e nas três esferas de governo.
O teatro midiático, que rende muito dinheiro aos meios de comunicação do País, exerce efeito psicossocial fenomenal e perverso na sociedade, arraigando o preconceito em relação aos menos favorecidos, na maioria negros e jovens, geralmente identificados como bandidos, e não como cidadãos.
Com as câmeras de vídeo, espalhadas pelas ruas e estabelecimentos, o palco das arenas de Roma está montado. Os jornais e programas televisivos se transformaram em programas policiais que destinam grande parte à divulgação de cenas reais de crimes, sempre enaltecendo o papel heroico de vencedores frente a vencidos.
Um destes eventos me deixou perplexo, tanto pela sua cobertura, nos mínimos detalhes, quanto pelas manifestações de dirigentes do Estado e corporações. Me refiro ao caso da militar Katia Sastre (Folha de São Paulo, 13 maio 2018), que enalteceu sua corporação, a Polícia Militar, e os poderes públicos, pela sua competência técnica “no combate ao crime e na defesa da sociedade”. A despeito disso, o que me estarreceu foi o descaso à vida que foi dissipada e a omissão e cinismo de dirigentes despreparados que desconhecem a dívida social acumulada por mais de 500 anos de escravidão velada no País. A militar foi homenageada pelo governador do Estado de São Paulo, como se ele e seus antecessores não fossem culpados pela enorme desigualdade social que termina levando jovens à morte pela violência. Seus superiores fizeram o mesmo, por ela ter desempenhado a contento sua função, heroicamente. O rapaz não foi executado, mas quem sabe, muita gente, como nas antigas arenas de Roma, não estaria torcendo e
autorizando, com o polegar para baixo, o “Estado” a matá-lo.
fjpires.s@ufc.br
Professor da UFC e coordenador do Observatório de Políticas Públicas
Data: 22/05/2018
Fonte: Jornal O Povo